segunda-feira, 7 de abril de 2014

Eu sofri violência obstétrica

Tanto tempo sem vir aqui e venho logo para falar de um assunto sério: a violência obstétrica. É o assunto do momento e acho que vale contar experiências para incentivar a mudança de quadro dentro dos hospitais do nosso País.

Sim, por DUAS vezes sofri violência obstétrica. Isso significa que em quase 12 anos, nada mudou nas maternidades brasileiras. Caio, meu primeiro filho, nasceu de parto normal, num domingo á tarde. Para meu azar, peguei peguei uma equipe de enfermagem de mal com a vida. Cheguei ao hospital Ana Costa, em Santos (SP), com bolsa estourada, contrações de cinco em cinco minutos e uma ansiedade gigante de que o que estava por vir.


Era meu primeiro filho e me preparei para aquele momento vendo programas de gravidez e parto na TV à cabo. Eu sabia como tudo aconteceria e o que eu precisaria saber. Mas, a realidade foi outra. Eu não tive meu filho em frente às câmeras de um programa da televisão norte-americana, a minha realidade era pra ser tupiniquim.

Meu convênio, plano enfermaria, não me permitia acompanhante no quarto. Com dores insuportáveis, fiquei sozinha gritando como louca e isso na era das cesárias, ou seja, apesar de estar na maternidade de um grande hospital da cidade, só eu quebrava o silêncio do lugar e isso enlouquecia as enfermeiras plantonistas.

No auge da dor, uma dessas enfermeiras, apareceu no quarto e bronqueou quando viu que eu não havia depilado e não havia mesmo, minha bolsa estourou 20 dias antes do previsto, não tinha como ter feito aquilo. Então ela largou a gilette na minha mão, me mandou fazer o trabalho e saiu do quarto.

Eu mal conseguia respirar. Estava sozinha, deitada na maca do hospital, sentindo dor e tinha que me depilar. De tempos em tempos ela entrava no quarto e me chamava a atenção porque eu nem havia começado, mesmo dizendo á ela que eu não conseguiria fazer aquilo. Em uma dessas terríveis visitas, ela disse: "Se você não se depilar, pode dar algum problema na saúde do bebê quando ela passar pelo canal vaginal". Oi??? Pode o quê??? Então fiquei apavorada de verdade, mas continuava sem conseguir fazer o  trabalho.

A dor intensificou e eu chamava pelas enfermeiras, mas elas já estavam na fase de ignorar aos meus chamados. Foi quando duas entraram no quarto, uma dando bronca porque eu não parava de chamar. Foi quando informei que estava fazendo força e que o bebê iria nascer ali. Ela fez pouco caso, dizendo que havia me olhado a pouco tempo e ainda demoraria para o bebê nascer. Mas a outra teve curiosidade de sair da porta e olhar entre as minhas pernas. Foi quando ela apavorou e começou a gritar que tinham que me levar para o centro cirúrgico urgente. O bebê já estava coroando. 

Me mandaram trocar de maca e mesmo sem forças, sai da maca alta do quarto para deitar sobre a maca que me levaria ao encontro dos médico, e isso sem qualquer apoio de uma das enfermeiras. No Centro Cirúrgico eu chorava desesperada, dizendo ao médico que o bebê não poderia nascer poque eu não havia me depilado. O médico riu, disse que eu não teria com o que me preocupar. 
Depois da peridural, tudo ficou mais fácil e apenas quatro horas depois que a bolsa estourou, o Caio nasceu.

Só depois do parto que o médico me informou da epsiotomia. Fiquei assustada porque eu nunca havia lido sobre isso e nem visto mulheres sendo mutiladas durante o parto nos programas norte-americanos. Mas se o médico disso que era necessário, quem era eu para discordar.

Enfim, Caio veio ao mundo com 3.800 kg e 48 cm num parto quiabo - depois de fazer força TRÊS vezes, ele saiu (e a primeira coisa que eu disse foi: GRAÇAS A DEUS). Isso significa que, apesar de já ter passado por tanto maus tratos com a equipe de enfermagem, também sofri violência médica por ter sido submetida a um procedimento desnecessário e não autorizado.

Meses depois, quando descobri que meu filho tinha um  problema na visão, logo atribui à falta da depilação. É uma coisa tão louca o que a gente passa na sala de parto, que marca pra sempre. O  problema visual do meu filho é genético, mas demorei muito para me convencer de que não ele não havia sido "brinde" da maternidade.

Já na última gestação a violência sofrida foi diferente, começou ainda na gravidez quando descobri, com doze semanas, que esperava gêmeas. A primeira coisa que meu obstetra falou foi: não faço parto normal de gêmeos, só cesária e só faço no hospital São Lucas, porque tem a melhor UTI Neonatal e pode ser necessária. Nunca havia se quer cogitado a possibilidade de fazer cesária, até porque eu parecia ser boa de parto normal. Também jamais havia pensado em, de repente, precisar de uma UTI neonatal, até então estava tudo bem comigo e com os bebês, mas, de novo, dei ouvidos a voz da experiência médica e me convenci de que seria necessário fazer cesária na maternidade determinada por ele. Tive uma gravidez bem tranquila mesmo e, com 34 semanas, as contrações se intensificaram. Não tinha Ponstan ou Buscopan que resolvesse aquilo. 

Fui para a maternidade contrariada, também num dia de domingo. Lá fui informada pelo plantonista que estava com 8 centímetros de dilatação. Meu médico chegou logo em seguida e em menos de 1 hora e meia estava com as gêmeas nos braços. A G1 nasceu com 2030 kgs e 42 cm e a G2 com 2150 kg e 42 centímetros. Ou seja, de novo uma intervenção cirúrgica desnecessária. Apesar de ter autorizado a cesária, não era aquilo que eu realmente queria. Eu sempre desejei o parto normal, mas permiti que me tirassem essa opção.

Claro que de novo fiquei sem acompanhante no quarto. O plano enfermaria não abrange isso e a equipe de plantão me negou esse benefício mesmo eu estando sozinha com dois bebês recém-nascido e tendo acabado de passar por uma cirurgia. 

Apesar do final ter sido feliz nos dois casos, foram bem difíceis de serem passados e esquecidos. Isso precisa mudar, especialmente o tratamento que as equipes de enfermagem oferecem às mães. Estamos ali, ansiosas, com medo e vuneráveis. Tudo o que não precisamos neste momento é pessoas ao nosso redor aumentando o terror num momento que deveria ser exclusivamente de amor.

* Imagem: página A 15 do Diário do Pernambuco de 6 de abril de 2014, que fala sobre Violência Obstétrica